Translados

TRANSLADOS
Fundação Nacional das Artes – Belo Horizonte

Marcos Amaro desbrava o campo escultórico contemporâneo em que não se define muito bem os limites do que entendemos por escultura, instalação e pintura. Tampouco é possível falar em estilo. Na arte contemporânea, a palavra caiu em desuso – e menos ainda se encaixa na obra-instalação pictórica de Amaro.

Não são normas tradicionais que regem sua criação. Assim como não há a exigência de materiais nobres ou fatura das próprias mãos do artista – a matéria sequer precisa ser moldada; é entregue tal como é. Em suma, não há a rigidez da pureza da forma e do material escultórico nem pictórico. A práxis de Marcos Amaro é transformar. Tirar o sentido original da aparência e da função de um corpo, dar-lhes uma nova condição de escultura. O mesmo com seus desenhos, gravuras e fotografias, em que registra os índices da aviação e embarcações bélicas.

O artista tem paixão pelas aeronaves, principalmente usadas na Primeira e Segunda Guerras Mundiais; aviões que foram vistos sobrevoando os céus da Europa no início do século 20. Submarinos desenhados na superfície dos oceanos também carregam uma atmosfera pesada do desenho denso cinza e negro, representação sinistra do medo que pairava sobre o território à época.

Nas pinturas escultóricas de parede, em uma primeira vista, emerge o acúmulo de coisas aparentemente aleatórias que compõem uma massa, assumindo certo geometrismo, meio mole, meio arredondado, ora duro, ora macio e, até mesmo, esvaziado de fisionomia. Em outras palavras, um gesto pictórico disforme que junta partes de maquinários a assentos vermelhos originários de material aeronáutico e fazem disso uma espécie de colagem ou bricolagem, como fazia o Movimento Dada, os inventores das instalações, ao reunirem matéria, forma e cor, lá nos anos 1920. Quase um século os separa.

Há nessas assemblages de Marcos Amaro campos bem definidos e organizados, tal qual se via nas colagens dos dadaístas. “Colagens agigantadas” é a melhor definição, assim como fazia, por exemplo, o artista alemão, inovador para sua época Kurt Schwitters (1887-1948).

Volumes amórficos organizados no espaço, no caso de Amaro, de diversas procedências. Sobressaem tema e material aeronáuticos. Um debruçar mais cuidadoso sobre essas esculturas e instalações leva o espectador a perceber que o que existe ali não é casual, mas, sim, uma ordenação peculiar.

A bem da verdade, o artista divaga sobre a diversidade dos materiais enquanto pinta, desmonta, acumula e pratica a colagem. Tudo isso compõe seu processo. Põe, tira, solda, desfaz, corta, serra, dobra, junta, aparafusa, rasga, cola, desenha, fotografa, grava e imprime. Os gestos plásticos da criação.

Muitas vezes, essa matéria é encontrada na condição de abandono, descartada no “ferro velho” da aviação. Saem do chão para o espaço aéreo novamente, verdadeiras “pinturas espaciais”.

Mais recentemente, Marcos simplificou esse processo de transmutação das partes dos aviões. Suas esculturas – as partes apropriadas dos restos das aeronaves que o artista recorta e desloca para o espaço expositivo – mostradas nesta exposição Translados adquiriram uma “limpeza” visual. São apenas pintadas de preto e apoiadas na parede ou, simplesmente, pousadas na superfície – o que lhes confere peso, volumetria e novos sentidos. Da mesma forma, gravuras e desenhos, impregnados de carvão, são silenciosos na sua contemplação.

É como se as esculturas que dialogam com esse negrume se transformassem em figuras impressas sobre o espaço aéreo. Podendo aludir a outras formas reconhecíveis, desenham no ambiente como que rabiscos densos de bastão oleoso preto. Peças que adquirem o aspecto de barcos – ou das sobras da carcaça de uma embarcação.

Deixam de ser partes de aeronaves para nos fazer lembrar partes de navegações, mimetizando assim, com o peso do escuro sobre o piso e as paredes, um mar no horizonte.

Na sua poética, o artista procura seu caminho plástico e a coerência interna do pensamento. Caminho e coerência que arrematam o conjunto desta exposição na Funarte de Belo Horizonte. Um trabalho que se junta a outro. Memória que é capaz de construir campos de cor no espaço.

Enfim, Marcos Amaro confere novos sentidos para a matéria, para o gesto de gravar e desenhar, em um claro desejo de ter asas para voar na imaginação.


Ricardo Resende
Curador

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